Saber como calcular o gasto energético parece a parte resolvida do atendimento: peso, altura, idade, uma fórmula e pronto. Até o dia em que você roda a mesma paciente em duas fórmulas diferentes e vê os resultados se afastarem em mais de 150 kcal. Multiplicado pelo fator de atividade, isso vira uma diferença de mais de 200 kcal no plano. Qual dos dois números está certo?
A resposta curta é que nenhum está certo. Toda equação de taxa metabólica basal é uma estimativa construída sobre uma população específica, e cada uma erra de um jeito previsível. A resposta útil é saber de onde vem cada fórmula, o que ela pede de dado e em qual paciente ela costuma se comportar melhor.
O roteiro completo do plano, do cálculo às refeições, está no guia de como montar um plano alimentar. Este post fica só na primeira conta: as fórmulas de TMB lado a lado, aplicadas à mesma paciente, e os critérios para escolher entre elas.
TMB, GET e meta energética: três números, três perguntas
Antes das fórmulas, vale separar o que cada número responde, porque boa parte da confusão nasce de chamar tudo de "gasto".
- Taxa metabólica basal (TMB). Quanto o corpo gasta em repouso, só para se manter funcionando. É o que as equações estimam. Na prática clínica, TMB e taxa metabólica de repouso costumam ser tratadas como a mesma coisa, embora a medida de repouso seja feita em condições menos rígidas.
- Gasto energético total (GET). A TMB multiplicada pelo fator de atividade. É a estimativa do que a pessoa gasta num dia real, com trabalho, deslocamento e treino.
- Meta energética do plano. O GET com o ajuste do objetivo: déficit, superávit ou manutenção. É o número que vai para o plano alimentar.
A fórmula de TMB é só o primeiro elo. Um erro nela se propaga pelos outros dois, e um erro no fator de atividade costuma pesar ainda mais. Os dois aparecem neste post.
As fórmulas de TMB mais usadas na prática clínica
Nas equações abaixo, P é o peso em kg, A é a altura em cm, I é a idade em anos e MLG é a massa livre de gordura em kg. O resultado sai em kcal por dia.
Harris-Benedict (1919) e a revisão de 1984
A mais antiga ainda em uso, desenvolvida com adultos saudáveis do início do século XX. Por isso tende a superestimar a TMB da população atual, mais sedentária e com outra composição corporal.
Original:
Homens: 66,47 + (13,75 × P) + (5,003 × A) − (6,755 × I)
Mulheres: 655,1 + (9,563 × P) + (1,85 × A) − (4,676 × I)
Revisada por Roza e Shizgal (1984):
Homens: 88,362 + (13,397 × P) + (4,799 × A) − (5,677 × I)
Mulheres: 447,593 + (9,247 × P) + (3,098 × A) − (4,330 × I)
A revisão recalculou os coeficientes com os dados originais e mais medições, mas manteve a mesma estrutura. Os resultados das duas versões ficam próximos.
Mifflin-St Jeor (1990)
Desenvolvida com uma amostra de adultos que incluía pessoas com peso adequado e com obesidade, o que a aproxima mais do consultório de hoje. É a fórmula com a estrutura mais simples de memorizar:
Homens: (10 × P) + (6,25 × A) − (5 × I) + 5
Mulheres: (10 × P) + (6,25 × A) − (5 × I) − 161
Numa revisão sistemática publicada no Journal of the American Dietetic Association em 2005, Frankenfield e colegas compararam as equações de predição em adultos saudáveis e concluíram que a Mifflin-St Jeor foi a que mais se aproximou da TMB medida por calorimetria, tanto em pessoas sem obesidade quanto com obesidade. É por isso que ela virou o ponto de partida da maioria dos nutricionistas para adultos.
FAO/OMS (Schofield) e Henry
Equações por faixa etária que usam só o peso. A versão adotada pela FAO/OMS em 1985 tem como base o trabalho de Schofield; em 2005, Henry revisou esse conjunto com um banco de dados maior e retirou parte dos estudos que puxavam os resultados para cima. Os coeficientes de Schofield para adultos:
Homens
18 a 30 anos: (15,057 × P) + 692,2
30 a 60 anos: (11,472 × P) + 873,1
Acima de 60 anos: (11,711 × P) + 587,7
Mulheres
18 a 30 anos: (14,818 × P) + 486,6
30 a 60 anos: (8,126 × P) + 845,6
Acima de 60 anos: (9,082 × P) + 658,5
A vantagem é dispensar a altura, útil quando ela não é confiável ou não pode ser medida, e cobrir também crianças e adolescentes em faixas próprias. A desvantagem é a mudança de faixa: no aniversário de 30 ou de 60 anos, a TMB da mesma pessoa, com o mesmo peso, muda de patamar. Se você comparar consultas dos dois lados dessa data, parte da diferença é da equação, não do corpo.
Katch-McArdle e Cunningham
As duas partem da massa livre de gordura, não do peso total. A lógica é que é o tecido magro que responde pela maior parte do gasto em repouso, e duas pessoas com o mesmo peso e composições diferentes não gastam o mesmo.
Katch-McArdle: 370 + (21,6 × MLG)
Cunningham (1980): 500 + (22 × MLG)
Nenhuma das duas usa sexo ou idade: essa informação já entra pela composição corporal. O preço é a dependência de um percentual de gordura confiável. A MLG sai de uma avaliação com dobras cutâneas, pelo protocolo de Jackson e Pollock ou pelo de Durnin e Womersley, ou de outro método de composição corporal. Se a medida de dobras for inconsistente, a TMB herda o erro inteiro, e por isso a técnica com o adipômetro importa aqui tanto quanto na própria avaliação.
Exemplo prático: a mesma paciente em seis fórmulas
Para ver a diferença com número, vamos usar a Marina, a paciente do guia de plano alimentar: 32 anos, 68 kg, 1,65 m, trabalho sentado e caminhada três vezes por semana. Para as fórmulas por composição corporal, suponha que a avaliação de dobras deu 30% de gordura. A massa livre de gordura fica em 68 × 0,70 = 47,6 kg.
- Mifflin-St Jeor: (10 × 68) + (6,25 × 165) − (5 × 32) − 161 = 1.390 kcal
- Harris-Benedict original: 655,1 + 650,3 + 305,3 − 149,6 = 1.461 kcal
- Harris-Benedict revisada: 447,6 + 628,8 + 511,2 − 138,6 = 1.449 kcal
- Schofield (mulher, 30 a 60 anos): (8,126 × 68) + 845,6 = 1.398 kcal
- Katch-McArdle: 370 + (21,6 × 47,6) = 1.398 kcal
- Cunningham: 500 + (22 × 47,6) = 1.547 kcal
A distância entre a menor e a maior estimativa é de 157 kcal. Com o fator de atividade de 1,4 que o guia de plano alimentar usou para a Marina, isso vira 220 kcal de diferença no GET, quase um lanche inteiro por dia. Nenhuma das seis contas está errada. Elas só partem de premissas diferentes.
Repare também onde as fórmulas concordam. Mifflin, Schofield e Katch-McArdle ficaram a menos de 10 kcal uma da outra. As duas Harris-Benedict subiram, como costuma acontecer, e a Cunningham ficou bem acima, um padrão que aparece com frequência quando ela é aplicada a quem não é atleta.
Como escolher a fórmula para cada paciente
Não existe fórmula universal, mas existe um raciocínio que resolve a maior parte dos casos.
- Adulto, sem composição corporal confiável: Mifflin-St Jeor é o ponto de partida mais defensável, pelo que mostrou a revisão de 2005.
- Composição corporal medida com boa técnica: Katch-McArdle passa a fazer sentido, principalmente quando a composição se afasta muito da média, como em quem treina força há anos.
- Atleta ou praticante com muita massa magra: Cunningham costuma ser a referência na nutrição esportiva. Fora desse perfil, desconfie de estimativas altas.
- Altura indisponível ou pouco confiável: as equações por faixa etária, como Schofield e Henry, resolvem com o peso.
- Comparação com relatórios antigos: se o histórico do paciente foi feito em Harris-Benedict, manter a mesma equação por um tempo deixa a evolução legível.
Dois casos pedem decisão clínica que a fórmula não toma por você: obesidade, em que existe discussão sobre usar peso atual ou ajustado, e situações clínicas específicas, como hospitalização, gestação ou doenças que alteram o metabolismo. Nesses, a escolha depende de referência específica da área e do seu julgamento, e vale registrar o critério usado.
O fator de atividade: onde a conta mais erra
As fórmulas de TMB divergem em dezenas de kcal. O fator de atividade multiplica tudo, então um degrau errado nele pesa mais que a escolha da equação. Os cinco níveis mais usados:
- Sedentário: 1,2. Trabalho sentado, sem exercício regular.
- Pouco ativo: 1,375. Exercício leve de uma a três vezes por semana.
- Ativo: 1,55. Exercício moderado de três a cinco vezes por semana.
- Muito ativo: 1,725. Exercício intenso quase todos os dias.
- Extremamente ativo: 1,9. Treino pesado diário ou trabalho físico intenso.
Para a TMB de 1.390 kcal da Marina, a distância entre "pouco ativo" e "ativo" é de 243 kcal. É mais que a diferença entre todas as seis fórmulas juntas. O fator sai do relato de rotina da anamnese, com a semana real e não a planejada: quem diz "treino cinco vezes" e treinou duas no último mês está no degrau de baixo.
Aplicação prática: o roteiro da próxima consulta
- Escolha a fórmula pelo dado que você tem, não pelo hábito. Sem composição confiável, Mifflin. Com composição bem medida, considere Katch-McArdle.
- Defina o fator pelo relato de rotina e, na dúvida entre dois degraus, fique no de baixo.
- Registre o critério junto do resultado: qual equação, qual peso e qual fator. Sem isso, o número de hoje não se compara com o do próximo retorno.
- Mantenha a mesma equação entre consultas. Trocar de fórmula no meio do acompanhamento cria uma variação que não existe no paciente.
- Valide no retorno. A fórmula é a hipótese; a evolução de peso, medidas e relato é o teste. Se o resultado não acompanha o esperado, ajuste a meta pelo que observou, não por uma fórmula nova.
Planilha ou software: onde a conta se perde
Em planilha, cada fórmula é uma célula que alguém digitou um dia. Um coeficiente com a vírgula no lugar errado passa despercebido por meses. A faixa etária de Schofield muda e a célula não. A massa magra mora em outra aba, de outra consulta, e a TMB por Katch-McArdle usa a avaliação velha sem avisar. E o registro de qual fórmula foi usada em cada retorno costuma existir só na sua memória.
No Amar Nutrindo, o planejamento do paciente calcula a TMB por Mifflin-St Jeor, Harris-Benedict (original e revisada), Katch-McArdle ou Cunningham, usando a massa magra registrada na composição corporal. Você escolhe o fator de atividade e a necessidade energética recalcula na hora, com a fórmula salva junto do planejamento. Ver como funciona na prática.
Conclusão: a melhor fórmula é a que você consegue repetir
As equações de gasto energético erram, e erram de formas conhecidas. Harris-Benedict tende a subir, Mifflin-St Jeor costuma ficar mais perto da calorimetria em adultos, Katch-McArdle e Cunningham dependem da qualidade da composição corporal, e as equações por faixa etária mudam de patamar no aniversário.
O que separa um cálculo útil de um número solto é o método em volta dele: a fórmula escolhida pelo dado disponível, o fator ancorado na rotina real, o critério registrado e a validação no retorno. Com isso, a margem de erro de qualquer equação vira um ajuste de semanas, e não um problema.
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